FUGIO UMA ESCRAVA DE SEMBLANTE AUSTERO E MELANCÓLICO

O “Monitor Campista” de 11.06.07 publicou e tirei para reflexão:

Há 150 anos – “Fugio de José Joaquim Marques de Carvalho, a sua escrava de nome Guilhermina, de nação Angola, de 50 a 60 annos de idade, corpulenta, preta, de semblante austero e melancolico; tem os pés inchados, e o dedo mínimo direito encolhido e levantado, em virtude de uma ferida que teve, hoje cicatrizada, pelo que no pizar deixa a dita preta sómente a pegada da planta do pé, e dos quatro dedos menos do mínimo: quem da mesma der notícia a seu senhor, morador no sertão da Saudade, ou a Moyzes Marques de Carvalho, nesta Cidade, ou apprehende-los será gratificado”.

 

Quem tem um semblante austero, pode ser interpretado como alguém que está determinado em alguma coisa, preocupado com aquilo, e até mesmo aflito por aquilo dado a rigidez com que encara a tarefa ou objeto. Coloco-me no lugar daquela escrava e me vejo com o fito único de alçar a liberdade, e ajudar outros a alcançá-la, independente da aspereza da luta nesse mister.

 

Nossa escrava Guilhermina, de 1857, que provavelmente morreu sem conhecer a abolição, tem os pés inchados, no dizer de seu senhor. Foi dessa forma que Cândido Portinari retratou o trabalho, já não escravo pois que era remunerado, nas lavouras de café na primeira metade do século 20. Pés inchados, por falta de condições de trabalho, a atestar a continuidade da exploração, mesmo após a abolição.

 

Como hoje, já não os pés, mas contas – correntes ou não, inchadas de juros ou de podridão. Portinari foi perseguido por mostrar essas mazelas. Perseguidos hoje são os que buscam a liberdade de consciência, a quebra das imposições de um sistema superado que não consegue educar, distribuir, promover o desenvolvimento, tornando a escravizar pela promessa de um céu de beatitude, pela taxação abusiva, pelo desemprego, pelo sub-emprego, pelo consumismo, pela quebra dos sonhos, pela negligência com a vida e com o futuro de um povo.

 

São poucos os que se deram conta de que é melhor lutar contra a perpetuação de um estado de coisas do que ser parte dele. Melhor ser partícipe de um futuro melhor e construí-lo desde já.

Mas não é só o sistema que embrutece e atrofia a sensibilidade. A falta de humanitarismo também o faz e de nada vale dizer que é pelo costume da época, pois em todas as épocas tivemos grandes humanitaristas; aqueles que foram contra os costumes de seu tempo e estabeleceram novos paradigmas e modelos. Temos muitos, em nossa própria História, inclusive aqui de Campos mesmo (José do Patrocínio, entre outros) que, enquanto a maioria escravizava, eles estendiam as mãos e lutavam contra aquele estado de coisas. Devemos muito a eles; é tempo de retribuir.

 

O senhor da escrava, embora soubesse que sua condição era penosa, pois atesta que ela tinha entre 50 a 60 anos e que pisava mal, era austera e melancólica, se rende à sua época e não lhe concede a liberdade, independente do clamor pela abolição oficial que viria. Pelo contrário: caça e gratifica a quem lhe desse caça.

 

Que mundo estamos construindo para as futuras gerações, já que as condições de competitividade não são iguais, prevalecendo quem pode mais, enquanto que a luta pela sobrevivência é de todos, formando nessa competição desvairada, legiões de excluídos entre os que não tem as mesmas oportunidades que os poderiam habilitar à porfia? Escravos de um sistema, já nem têm mais para onde correr. Se querem continuar transitando pelos corredores da honestidade, se tornam presas fáceis do sistema, como caças, de chapéus nas mãos. Os que transitam por outros corredores, fazem, por sua vez, caças, com as armas nas mãos. E, mais uma vez a história parece se repetir, fazendo lembrar os povos bárbaros que vieram cobrar do Império Romano aquilo que não lhe fora facultado por quem o deveria fazer: a educação e as oportunidades de desenvolvimento, passaram a ser exigidas pela força.

 

O império de hoje está fazendo a lição de casa? É possível isolar-se do mundo? Afinal, o conjunto das necessidades humanas é bem maior do que o conjunto dos que detêm as riquezas do mundo e que se banqueteiam no fausto da opulência que afronta a necessidade. Permanecem a indiferença e a acumulação para os poucos, em detrimento de muitos. E isso vem correndo os séculos de forma amarga e rude.

 

Cadê os líderes de hoje; os dos G-8, G-5, G-n? Muita polêmica, muito fermento como os dos fariseus, mas nada a acrescentar de novo no front da luta ingente da promoção da igualdade no mundo, à qual teimam em se furtar.

 

Ao lembrar do semblante de Guilhermina, elevo o pensamento a Deus e pergunto quanta melancolia ainda grassará o planeta até que a verdadeira justiça se estabeleça entre nós?

 

Reflito: e os ceifeiros? O que digo? Eles estão ocupados com as obras do amor do próximo, como tenho testemunhado por esse interior afora. A mídia deles é a do coração e poucos são os que se acertam com ela. Exige trabalho, abnegação, devotamento e recolhimento ao recôndito do coração, onde as luzes dos holofotes não penetram, mas a luz da sublimação do Ser se substancia paulatinamente. A fome abrandada, a lágrima enxugada, a mente esclarecida, são construções de esperança no porvir glorioso da humanidade a que eles se entregam hoje, como o fizeram outrora, em todos os campos de atuação humana, os grandes vultos da humanidade, a quem muito devemos. Não só a eles, pois sozinhos não poderiam fazer tudo o que fizeram, mas também aos trabalhadores anônimos de todas as grandes causas humanas. Anônimos, como hoje também os temos, a despeito da Babel da indiferença, do individualismo e do desamor em que se transformou o mundo. São virtuosos e não o sabem. Simplesmente trabalham no anonimato e na renúncia a si mesmos e às ilusões do mundo, sem se questionar nada, como que atraídos pela doce ressonância do chamado que prossegue correndo os milênios, em busca de ouvidos de ouvir e de corações de boa vontade de fazer: “E se alguém te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele ainda mais dois mil”, como a nos concitar ao devotamento e abnegação, à responsabilidade e ao comprometimento na grandiosa tarefa: vai além de teu mundo e dos teus; estende tua solicitude ao teu irmão do caminho independente de quem seja ele; faça com que tua vida valha à pena para que possas estar apto ao salário do justo.

 

E, nessa luta contra as injustiças, não querer ser responsável por injustiças já é um começo. Não querer ver ninguém melancólico, como as Guilherminas de hoje, por causa ou omissão própria já é um norteamento.

 

Não querer nada para si que não lhe seja justo, e lutar contra as injustiças humanas, mesmo que isso não represente mais do que a aparentemente inócua repercussão sobre o mundo do bater de asas de uma borboleta, já é um avanço. Bater de asas que pode ser configurado numa simples atitude ética de não tomar o que não lhe pertence, de não desrespeitar ninguém, mesmo naquilo que aparentemente possa parecer insignificante como se antecipar em um lugar na fila – seja de que natureza for essa fila, em detrimento de outros legítimos possuidores da vez, mesmo que estes estejam vestidos com a túnica da humildade. Afinal, somos todos iguais, e, mesmo que alguns pensem que são melhores, se assim passarmos a pensar, na igualdade, não haverá mais espaço para os dramas das Guilherminas, das Marias, dos Josés e dos Joãos.

 

Pequenas ou grandes atitudes em favor da moral são asas da liberdade, sim, e é preciso multiplicá-las, os que têm fome e sede de justiça, pois dia virá em que a verdadeira noção de justiça se fará sobre todos e já não haverá mais Guilherminas correndo assustadas e melancólicas, fugindo de seus algozes em busca de um canto de paz em que possam afogar suas melancolias e reencetar um novo viver. Haverá, sim, Guilherminas convivendo em um mundo mais humano, sob o influxo da liberdade e do amor fraterno, onde a melancolia e outros males não habitarão.

Por que será que o lugar se chamava “Sertão da Saudade”; seria por causa da melancolia de Guilhermina e outros tantos como ela? Saudades de Angola? Escolhamos nós mesmos o nome do lugar onde queremos viver e lancemo-nos à tarefa de realizar algo como uma espécie de “Recanto da Fraternidade”, ou coisa parecida, sem melancolias ou medos, onde o sentimento marcante dos corações seja o do amor fraterno. Lugar tão grande e acolhedor, que, em contraposição com a chocante realidade do panorama do mundo que temos, haverá espaço e oportunidades para todos que assim o desejem e se esforcem, independente da condição atual de cada um. Esse recanto é o próprio mundo, que aguarda a tarefa de reconstrução, a começar pela renovação de nosso próprio mundo íntimo em favor de nós mesmos e, por conseguinte, de todos nós.

 

A propósito, estamos aptos às nossas cartas de alforria? Já somos os escolhidos ou apenas estamos na legião dos “muitos os chamados”?

 

O tempo passa ligeiro, diz a canção…

Anderson

13.05.08

 

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